4 dias em Lanzarote (Ilhas Canárias)

*Post convidado por Adriana Raupp


Praia em Arrieta

Lanzarote nunca foi para ser muitas coisas mas agora é tudo. Esse destino já havia sido mencionado em conversas sobre lugares que um dia iríamos, junto com infinitos outros nomes. O Guilherme tinha visto “José e Pilar” e ficou com vontade de conhecer a ilha vulcânica, mas sei lá, acho que por conhecermos só uma pessoa que tinha ido, nunca era topo da lista de prioridades.


Dezembro no hemisfério norte é sinônimo de poucas horas de luz, além do frio, claro. Na Inglaterra, as poucas horas de luz costumam ser encobertas, então o sol é raro. Antevendo essa situação, em maio decidimos que escaparíamos para um lugar mais ameno. Optamos pelo Marrocos, pois uns amigos tinham voltado recentemente e a impressão era sempre positiva.


Em agosto, após o verão intenso de muito trabalho e muitas viagens, estava muito estressada e meu marido, preocupado com meu bem estar, observou que o Marrocos talvez não fosse esse destino de paz que buscava. Muitas pessoas te abordando para vender algum produto ou serviço, oferecendo camelos, e negociando preços. Resolvemos consultar o oráculo.


Skyscanner:


De: “Londres aeroporto mais perto da nossa casa” (luxo)

Para: “qualquer lugar classificar por preço mais barato”

Quando: “data que íamos para o Marrocos”

Horário: “aquele que não precisa de pressa” (segundo luxo)

Resultado: Lanzarote


Demorou. Temperatura de 15 a 25 C, probabilidade de sol altíssima e menos vento do que o costume. Perfeito!


Ah, além disso, apostei um jantar que ficaria de aeroporto a aeroporto sem usar meu telefone. Spoiler: ganhei! Aliás, acho que os amigos e familiares só “permitiram” isso pois Lanzarote virou lua de mel, já que fomos pra lá cerca de duas semanas depois de casar.


Lanzarote é lindo! Nunca estive num lugar como lá. Parece outro planeta. Pertence à Espanha, mas fica a 100 km da costa oeste africana. Como fomos na baixa temporada (dezembro de 2019), os hotéis estavam muito mais baratos; ficamos num resort com várias piscinas, academia etc, pagando 50% do preço normal. Nosso apartamento tinha cozinha — gosto de cozinhar o café da manhã e não sair às pressas com fome ou então comer todos os dias comida que inglês come pela manhã (ah sim, Lanzarote já foi descoberta pelos britânicos e irlandeses há muitos anos, diria que no mínimo 50% dos voos que lá chegam vêm daqui).



Nosso hotel ficava em Costa Teguise, a 15 min de carro do aero, e recomendo muito alugar carro. É a melhor forma de acessar todos os cantinhos da ilha que, apesar de pequena, varia muito em termos de paisagem e clima.


Outra coisa que vale comentar: demoramos para achar bons lugares para comer. Amo receber dicas de conhecidos, mas dessa vez não rolou, então tivemos que tentar a sorte com os reviews do Google, algumas erramos rude, outras foram muito boas e até hoje lembro com carinho das comidas que comi.


Vamos ao roteiro:


Dia 1: Norte


Chegamos sábado à noite. Ainda bem que o hotel tinha um minimercado, senão morreríamos de fome. Domingo de manhã lembrei que o Mercadillo de la Villa de Teguise só abria naquele dia, então lá fomos nós. Artesanato local e algumas barracas de comida, tomamos um caldo de cana, que lá é servido com limonada.


Neste dia descobrimos algumas produções típicas de Lanzarote: aloe vera e tudo que se pode fazer a partir da babosa, e também a cochonilha, um inseto que habita os cactos de Lanzarote e é usado para fabricar tinta para tecido.


Do mercado fomos para os outros afazeres turísticos do dia. Mas antes passamos por uma estrada e vimos umas estruturas de pedra erodida muito lindas. Vimos também que tinham alguns carros parados lá e pessoas tirando fotos. Paramos e tiramos fotos e depois descobrimos que o lugar se chama Cidade Estratificada.


Chegamos no Jardim de Cactos, um jardim curado com todos os tipos de cactos de Lanzarote.


Jardim de cactos

Seguimos para Punta Mujeres, um povoado com uma piscina natural. O dia estava aquele famoso sol-entre-nuvens da meteorologia, portanto não entrei na água mas fiquei com vontade de voltar num dia que estivesse sol.


Decidimos comer algo no Bar Palenka: gambas ao ajillo, pulpo a la galega e croquetas. A comida não estava excelente, mas o chope Tropical estava gelado e caiu muito bem.


Pulpo a la galega

Do almoço de tapas fomos para o Mirador del Rio, de onde podemos avistar a ilha La Graciosa e ver Lanzarote de seu pico mais alto.


A Cueva de los Verdes é uma gruta formada por um rio de lava, o passeio dura uns 40 min e aprende-se bastante sobre a composição mineral da ilha. Já Jameos del Agua é um café/museu/jardim/etc que usou uma parte desse mesmo túnel de lava da Cueva como cenário. Além disso, é casa também de uma espécie única de micro lagosta albina. Diga-se que quase tudo em Lanzarote foi feito por um artista local César Manrique que até hoje, mesmo não estando mais vivo, é muito importante para a ilha (dá nome ao aeroporto, por exemplo).


Jameos del Agua

Dia 2: Sul


Por sorte vimos que a Casa José Saramago fechava às 14h, então trocamos o roteiro e fomos lá pela manhã. O tour é guiado por uma pessoa e por um audioguide.


Visitamos a casa, o jardim e a biblioteca do escritor que morou lá nos últimas décadas de sua vida com sua mulher, Pilar del Rio. Saramago trocou Portugal pela ilha depois que o governo português vetou seu livro, o Evangelho segundo Jesus Cristo, de concorrer à um prêmio de leitura pois foi considerado ofensivo e mal escrito. Tudo demora cerca de 2h e é muito íntimo. Lemos em voz alta passagens e podemos ver de pertinho suas fotos de família e coleção de pedras.


Porta-retratos de José Saramago

Achamos um restaurante perto da casa do José Saramago no Google e demos MUITA sorte. O La Posada tem uma característica que muitas vezes é sinônimo de boa comida: especiais do dia em um quadro de giz. Optamos, os dois, pela pluma ibérica que constava no quadro pois só teríamos 40 min para comer e os especiais costumam sair mais rápido. Que delícia! Carne de porco na brasa com batatas fritas, perfeitos.


Pluma ibérica no La Posada

A pressa no almoço foi por uma boa causa: horário do tour guiado numa vinheria. Havíamos marcado online com alguma antecedência o tour na Bodega La Geria. Existem algumas em Lanzarote, mas essa tinha mais recomendações. Se não estou enganada, na ilha são cultivados 3 tipos principais de uvas: malvasia vulcânica, listán negro e moscatel. A curiosidade é que as vinhas estão plantadas sobre cinzas vulcânicas, e também dentro de meia-luas formadas com pedras para proteger do vento. Ao final do tour provamos 3 vinhos, o primeiro, malvasia, tinha notas de banana e frutas tropicais, o segundo, listán negro, de fumaça e o terceiro, moscatel, de pêssego.


Bodega La Geria


Após os vinhos fomos para a Playa del Papagayo. Passamos por uma estrada de terra até chegarmos e o vento nesse dia estava impiedoso. Até os óculos voaram quando saímos do carro. Não descemos até a praia, mas procurei fotos na internet depois e é muito engraçado ver as pessoas curtindo a praia sem preocupação.


Playa del Papagayo


Dia 3: Norte


Outro ponto que não estava em nosso roteiro inicial e depois entrou quando vimos pessoas indo para lá foi Castillo de Santa Bárbara. As ruínas de um castelo na boca de um vulcão dormente. O castelo fica bem alto e a paisagem é incrível. Além disso, dentro do castelo existe o museu da pirataria. Lanzarote foi muitas vezes saqueada por piratas por estar no meio de muitas rotas comerciais. Também foi saqueada por escravagistas que levavam os habitantes da ilha para serem vendidos em outras praças. Os primeiros habitantes de Lanzarote, aliás, eram berberes, uma comunidade nômade da região do marrocos.


Castillo de Santa Bárbara

Aproveitando que estava muito sol e o vento não estava muito forte, voltamos à Piscina Natural de Punta de Mujeres. Era mais cedo e a lua já não estava tão cheia, então o nível da piscina estava bem mais abaixo do que no domingo, mas nada disso importava. A felicidade de mergulhar em águas transparentes com peixes em dezembro é inenarrável.


Após algumas horas de exposição ao sol e ao sal, garantindo a vitamina D dos próximos meses, fomos almoçar em Arrieta seguindo as sugestões do Google novamente. Não acertamos nem no restaurante e nem no prato. O restaurante era super turístico e acabamos pagando bem mais do que esperávamos e o prato era uma parrilla de frutos do mar, ou seja, aquele prato que serve pro dono do restaurante reduzir o prejuízo dos pratos melhores: junta peixes e carnes muito mais baratas com alguns caros para reduzir o custo médio.


Dia 4: Centro


Saímos de casa muito cedo para pegar a Ruta de los Volcones numa temperatura amena e sem muito sol no coco. O Parque Nacional de Timanfaya é lindo demais, talvez a paisagem que tenha mais marcado minha memória em relação à ilha: lava endurecida por quilômetros de vista, interrompida somente por vulcões propriamente ditos, com toneladas de cinzas cobrindo o caminho. A trilha que escolhemos durava cerca de 3h e em termos de dificuldade, classificaria como fácil, só é necessário um solado mais reforçado já que as cinzas são na verdade pequenas rochas vulcânicas.


Ruta de los volcones

Após um passeio bem sucedido resolvemos não errar no almoço e voltamos para La Posada. Pedimos mais pratos do menu de giz: Pimientos Padrón, Huevos Revueltos con Choricinos e Pluma Ibérica novamente. Tudo impecável.


Pimientos padrón

Huevos revueltos

Depois dos bem sucedidos passeio e almoço fomos à Casa Museo del Campesino, uma vila operária construída por César Manrique onde hoje funcionam restaurante, bar, café, lojas de artesanato e casa-museu de uma típica família de operários. Além disso, podemos ver expostas no jardim ferramentas para trabalhar a terra, moer grãos e para transporte feito por camelos.


Para fechar a viagem resolvemos ir a um restaurante de chef e descobrimos o Ikarus. No centro de Teguise, a proposta do restaurante é priorizar produtos locais e estava tudo delicioso. Eu pedi um tataki de atum canário e Guilherme um estufado de cabrito com batatas fritas. O atum estava muito fresco e satisfez minha vontade de comer algo leve, o cabrito estava muito bem feito e temperado, lembrou a comida dos meus parentes do norte de Portugal, e isso pra mim é o melhor elogio possível. De sobremesa, dividimos um bienmesabe canário: sobremesa típica das ilhas canárias feito com amêndoas, ovos e canela.


Tataki de atum canário
Estufado de cabrito

Lanzarote não é a mais famosa das ilhas canárias, mas na opinião de quem foi (mas também não foi a nenhuma das outras ilhas), deveria ser a principal! Brincadeiras à parte, recomendo muito, para todas as idades e tipos de viajantes, principalmente na baixa temporada. Destino impecável durante o ano inteiro, mas mais vazio em dezembro. Se voltaria pra ilha? Sim, mas só se fosse sugestão do Skyscanner novamente, afinal, ainda tenho que conhecer o Marrocos, né?